1928


"Há certeza no seu tom de voz. Desejo certeza, muito além do seu corpo, alma, amor, anseio por certeza. Não é loucura pedir que segure firme minha mão - enquanto caminho em uma corda. Não é."




- Não parece ter certeza do que diz.
- Possuo, lhe asseguro - pausou -, mas evidentemente acreditar ou não, lhe é direito inerente.
- Poderia simplesmente ter cuspido "acredite se quiser" - sorriu levando a cabeça para trás.
- Lhe é direito inerente - disse e se pôs de pé -, assim como eu faço o que eu quiser.
~ ~
- É isso que eu gosto nela - Thomas disse ao amigo quando já não se podiam ouvir os passos de Izabel indo para longe da sala.
- Que ela te trate mal? - retrucou Alfredo.
- Que seja ela - respondeu olhando o nada.
Alfredo deu de ombros e voltou a atenção para o livro de Fitzgerald qual fingir ler, apenas para chamar atenção das garotas, para ele, ser inteligente era bonito, mas lhe bastava fingir, o que era o oposto de Thomas.
~ ~
- Seu primo gosta mesmo de estar aqui, não é Melissa?
- Izabel, eu já pedi, ou melhor, supliquei que deixasse a implicância de lado, ele passou pelos momentos mais obscuros na vida de um homem, tem estado irritante, mas é uma boa pessoa! Asseguro-lhe.
- Obscuros... - repetiu intrigada - Contará como ele perdeu toda sua herança em meretrizes e jogos? - Izabel quase se arrependeu do que perguntou, não por quão ousado foi, mas por que esperava obter uma resposta negativa, esperava que Sr. Grant fosse diferente, e que definitivamente, não estivesse com outras mulheres... Voltou atrás no pensamento-desejo, seu senso a advertiu dizendo "é um homem Izabel, obviamente se deita com outras...".
- Izabel???????
- Oras, conte-me - disse espantando os pensamentos.
- Thomas é viúvo. Perdeu a esposa e a filha.
A feição de Izabel descrevia seu espanto como palavras não o fariam, sentia-se também envergonhada por todo julgamento e feliz, sentia-se feliz por ser um homem bom, e triste por estar feliz pela tragédia de alguém, Izabel era um posso de "sentia-se"
Izabel voltou a sala, Thomas ainda estava no mesmo lugar, não a viu voltar, de longe ela lhe olhava observar o nada, o sol da tarde que entrava na casa, fazia o cabelo negro de Thomas brilhar ainda mais, quase sentia inveja do tom do seu cabelo, ou o tom da sua pele, vivo, diferente do seu tom amarelado, Thomas era distinto, tinha traços finos e fortes, sobrancelhas que destacavam ainda mais o olhar profundo que nesse momento encarava Izabel de volta.
"Não olhe Izabel. Não olhe. Encarar não é bonito. Vire Izabel" ela repetia para si mesmo sem sucesso, "não ande não ande não ande" mais uma vez sem sucesso, já estava sentada ao lado do rapaz.
- Não dirá nada? - ele perguntou curioso.
- Você tem traços perfeitos - soltou e quis engolir as palavras, não era nem um pouco bonito o que estava fazendo, e provavelmente seria advertida se Thomas Grant dissesse a alguém, poderiam desconfiar de sua pureza.
- Obrigada Izabel, você também.
- Você também? Ficasse calado, senhor.
- Desculpe-me, gostaria de ouvir como parece magra? Tem uma silhueta linda, és um fato, mas o vestido esconde isso. Ou gostaria de ouvir como tem olhos vivos? São vivos. Tudo no seu rosto se encaixa. Você é linda, sabe disso.
- Muito melhor.
- Essa não é uma conversa apropriada para se ter com qualquer pessoa.
- Depende.
- De quem?
- Não de quem. Do que. 
- Do quê? - ele indagou. 
- Da honra desse qualquer em não contar a uma alma viva sobre essa conversa.
- Touchè.
- Como é seu nome?
- Não acredito que não saiba.
- Pois não sei Sr. Grant.
- E como se refere a mim quando fala de mim para minhas primas?
- "Seu primo" - sorriu.
- E as mesmas nunca pronunciaram meu nome?
- Era inútil até então, por quê haveria de ouvir? - brincou.
- Estragaram você! - disse firmemente.
- Era uma brincadeira, Thomas.
- Eu sou inteligente o suficiente para entender o tom de voz de uma criança, senhorita Basso, como também sou para encontrar o motivo pelo qual está aqui.
- E qual seria? - perguntou ainda ofendida por ter sido chamada de criança.
- Uma vez lhe foi perguntado o que lhe fascinava.
- E?
- Qual seu fascínio?
- Se ouviu a pergunta, sabe a resposta.
- Tristeza.
- E o que há?
- Lhe contaram sobre minha história e agora tem fascínio sobre a dor que me cerca. Saiba quê, não preciso de mais um sentindo pena.
- Pois então, eu só faço caridade a noite, é quando vou dar comida aos que precisam ensino em uma escola da vila, o que, claro, ninguém sabe, logo conto com sua descrição, e digo isso pois, é isso que faço quanto sinto-me compadecida pela dor de alguém, ou o abraço, quando as dores são na alma. Não me recordo de lhe ter oferecido comida, tentado lhe ensinar ou dar-lhe um abraço. Guarde seu ataque para as senhoras que tentarão casar-lhe por pena ou para as moças que o cercarão por lhe achar um alvo fácil. Quanto a mim, quando eu decidir cercar um homem, ele saberá.
- Negue o quanto quiser, mas sabemos, que me acha tão bonito e tão interessante, que me cercaria sob qualquer circunstância se fosse... Diferente.
- Ah, não senhor - pausou -, nego apenas o que não fiz ou não faria.
Izabel levantou e sorriu para Thomas, que lhe sorriu cordialmente de volta, ao ver a senhora Basso se aproximando.
- Onde vai Izabel? 
- Descansar, madrinha. 
- Esteja pronta ao sol se por.
- Estarei - disse e olhou uma última vez para Thomas, que ainda a fitava, quis sorrir, mas engoliu a vontade, deu as costas e foi até o quarto, Izabel pela primeira vez havia sentido o que todas as amigas chamavam de "frio na barriga" e gostaria de sentir aquilo novamente.

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