1928 - Últimos minutos.
"Os ciumentos não precisam de motivo para ter ciúme. São ciumentos porque são. O ciúme é um monstro que a si mesmo se gera e de si mesmo nasce."William Shakespeare
- Onde está à
segurança de ontem? Está ao menos perdida dentro de você ou esvaiu enquanto
dormia? - Thomas perguntou.
- A minha
segurança está intrinsecamente ligada ao seu comportamento - Izabel respondeu
rispidamente e sentou-se entre suas primas, deixando vago a esquerda e direita
de Thomas, coisa que não fazia há três meses, não podia esperar que tal
passasse despercebido...
- O que
aconteceu? - Melissa sussurrou assim que ela se sentou.
- Nada
acontecerá.
Thomas tinha
apenas alguns minutos antes que sua tia, madrinha de Izabel descesse e o
pegasse trocando de lugar ou uma quase cena, pois estava certo de que ao pedir
que Melissa deixasse que ele sentasse ao lado de Izabel, esta diria que não e o
trataria da forma mais rude possível. Sem mesmo pensar, levantou e cochichou no
ouvido da prima, qual prontamente se pôs de pé, mesmo com Izabel segurando seu
pulso.
- Parece que
o destino queria que continuássemos a tomar café um ao lado do outro.
- Thomas
está é uma frase que se diz quando coincidências acontecem, e ainda que sejam
forçadas, alguma parte acha que foi coincidência.
- Você não
poderia calar a boca? - ele soltou.
Izabel
arregalou tanto os olhos que eles pareciam estar saltando, o espanto foi tanto
que não pensou em uma palavra, focou sua atenção ao seu prato por todo café da
manhã.
Thomas de
forma alguma acreditava estar no banco do réu, porque para ele, não havia proferido
sequer uma atitude qual o conformasse tal encargo. De outro lado, estava uma
mulher enfurecida, enciumada, ardendo em ódio e prestes a explodir. O estopim
para a situação não poderia ser outro, Laura - tocando a mão, o ombro, sorrindo
para Thomas - insistindo que Thomas recitasse passagens das histórias
românticas mais aclamadas.
- Ora, sobre o que falam? - indagou.
- Sr. Thomas está recitando suas
passagens favoritas - Laura disse em tom animado -, todas tão românticas -
sorriu e levantou a sobrancelha, fazendo Izabel revirar os olhos.
- O que há com você? - Melissa
perguntou.
- Recite algo, Izabel - Alfredo disse em
tom de desafio. Izabel não era como as outras mulheres, não lia porque lhe
cabia ler, lia porquê gostava, e de todas passagens qual pensava, não pode
recorrer senão a sua escritora favorita.
- Eu já li muito mais do que lerá em toda
sua vida. - Izabel retrucou - Pois bem, "não tenho medo de
mostrar meus sentimentos e de fazer
coisas imprudentes, pois acredito
que o que não se mostra, não se sente. Coisa que talvez surpreenda muito a você, pois os seus sentimentos são tão guardados que parecem não existir realmente.".
- Como vou saber que você simplesmente não inventou isso? - Alfredo
perguntou.
- Alfredo querido, você não envergonha ninguém além de você mesmo,
fazendo essa pergunta - sorriu satisfeita e saiu, ainda pode ouvir Thomas dizer
"Quer ela tivesse criado agora, você percebe que seria um elogio?",
Izabel não conseguiu conter o sorriso e quando seus olhos finalmente pararam,
ela notou que sua madrinha a encarava, e estava vindo em sua direção.
- O que você acha que está fazendo, Izabel?
- O que a senhora acha que eu acho que estou fazendo?
- Não, você não vai se safar dessa mocinha!
- Madrinha, eu apenas recitei Jane Austen.
- E por isso sorria?
- Sim.
- Você tem sorrido muito.
- Agora a senhora me ofendeu. Achei que me quisesse bem e por tanto
desejasse minha alegria.
- Eu já avisei que não se safará com seus jogos.
- Que jogos?
- Eu a amo e sempre
fui paciente...
- Eu o amo - Izabel a
interrompeu e disse o que esperava não precisar dizer.
- Ele a ama?
- Eu levei como
certeza sentimentos que jamais foram afirmados em palavras - disse e desviou o
olhar, Thomas continuava recitando poemas para Laura -, não que estas em universo
algum sejam mais valiosas que ações, que o que se sente... Só que são... Em
nosso mundo, a palavra de um homem vale mais que um jantar a luz de velas no
meio de uma madrugada qualquer, vale mais que cartas trocadas, valem mais
que os bilhetes quais afirmavam a saudade que seria sentida, valem mais que
olhares cortantes, vale mais que o desejo ardente de dois corações, vale mais
que o arrepio com os pensamentos inapropriados, valem mais do que o que eu
quero e valem mais do que eu gostaria que valessem nesse momento.
- Jantares? Você fez
algo que não deveria ter feito?
- Eu estou apaixonada,
não burra.
- Meu coração dói
junto com o seu, Izabel.
- Não há espaço para
dor dentro de mim, não mais, então não sinta.
- Estou indo para
Londres em alguns dias, gostaria que...
- Não. Se eu for,
Laura se sentirá ainda mais confortável, eu não posso sair daqui.
- Construir uma
muralha para prevenir que ele não ultrapasse ou perceber que ele não quer
ultrapassar?
- Não
arriscarei.
- Não está certo.
- Não discutirei mais
sobre isso, é minha palavra final, é o homem que eu amo.
Os dias que se
sucederam foram tão difíceis para Izabel quanto para Thomas, até que a conversa
inevitável foi proposta.
"Encontre-me no jardim, mesmo horário."
Izabel pôs seu melhor vestido,
seu colar de pérolas, cor nos lábios, soltou o cabelo e o mais falso sorriso já
visto em toda história, entre a porta do seu quarto e o jardim estava decidindo
se usaria sarcasmo e ironia ou frieza, no fim, sua primeira frase estava cheia
de ambos.
- Errou o
quarto?
- O que quis dizer com
isso?
- Era mesmo eu quem
esperava? Não Laura?
- Novamente; o que
quer dizer com isso?
- Não sente nada por
Laura?
- Não.
- "Uma
vez descoberto, o ciúme passa a ser considerado por quem é objeto dele como uma
desconfiança que autoriza a enganar." - Izabel disse, após alguns
minutos em silêncio, decidiu voltar para casa, quando Thomas perguntou
"Marcel Proust?
- Sim.
- Inaplicável.
- Com certeza não.
- O que está
insinuando?
- Quero dizer que seu
comportamento em relação à Lady Laura tem sido suspeito e inadequado.
- Inadequado? Sou um
homem viúvo Izabel, sem laços, sem comprometimento, tem noção disso?
- Agora, sim, Sr.
Grant.
À medida que Izabel se
distanciava, Thomas se arrependia de todas as palavras, mas talvez fosse tarde
demais para voltar atrás, Izabel estava cheia de indagações e o pensamento que
mais pairava era acerca da falta de defesa de Thomas, ela dormiu com a
pergunta; por que Thomas disse que era um homem livre quando todas suas ações
demonstravam que seu coração lhe pertencia? Que sua estima já havia
sido... O sono interrompeu seus
pensamentos, o cansaço e a tristeza lhe venceram.
Para ele nunca foi tão
fácil deixar a casa para mais uma viagem, para ela, nunca foi tão difícil odiar
alguém. Pois esta é a parte engraçada no amor, quando há ódio, a ambuiguidade
que toma aquele que abriga ambos os sentimentos lhe toma a sanidade mental.
Quando Thomas voltou, outras visitas
haviam se instalado na Mansão da família Basso, moças e rapazes se preparavam
para a maior festa do ano e última. Seus olhos passaram por toda sala de jantar
procurando os de Izabel, ao encontra-los desviou rapidamente ao perceber que
ela estava olhando para outra pessoa. Para outro homem.
- Bem vindo de volta, Sr. Grant – Izabel disse
sorrindo e avisou aos outros que se recolheria para estar mais disposta ao inicio
da noite.
Aos poucos, todos deixaram a sala e foram
para seus aposentados, os sentimentos mais variados passeavam entre os corações
dos convidados da Sra. Basso, esta qual, muito embora tenha organizado toda
festa com maestria, não desviou os pensamentos da sobrinha por um minuto, para
ela Izabel era uma filha, e a sua tristeza lhe compadecia.
- Ainda pensando em Izabel? – Sr. Basso
perguntou.
- Sim.
- Minha irmã ficaria muito feliz em ver
seu cuidado com Izabel.
- Eu só gostaria que ela não ficasse tão
infeliz.
- Ela não irá.
- Heitor, Izabel não aceitará outro homem
enquanto Thomas for dono de seu coração... Ela ficará sozinha.
- Izabel é linda, Mary. Ela é quase uma
cópia de minha irmã, é adorável, inteligente, doce... Izabel não ficará infeliz,
mesmo que ficasse sozinha - o que não
acredito de forma alguma que acontecerá.
Izabel desceu as escadas lentamente
esperando que todos os homens já estivessem lá, e de forma ousada, ambiciosa e
sem decoro, fez o último desejo do ano; que todos os homens desviassem o olhar
do que quer que olhassem e avistassem sua descida triunfal, e que Thomas Grant
estivesse lá para ver a mulher que perdeu, ser desejada por todos. Com Melissa
engatando um noivado – ainda que não oficial – Suzan apaixonada por Alfredo –
por mais boboca que fosse – e com todas as outras moças apaixonadas, ela era a
única qual poderia ser alvo de pretendentes.
- Todos estão olhando para ela – Thomas disse
irritado.
- Ela quis ser a Sra. Grant, mas você não
quis, não é mesmo? – Melissa disse e estendeu o braço para Alfredo, levando-o
até Suzan.
Thomas foi até o final da escada, e ao
notar que Enrico se aproximava, subiu o mais rápido possível e pediu que Izabel
parasse.
- Me concederá a primeira dança da noite
e ultima do ano?
- Não.
- Me concede a primeira dança da noite,
Srt. Rivera? – Enrico perguntou, estendo o braço.
- Sim.
Embora Izabel estivesse com um sorriso
estampado em seu rosto, seu coração estava triste, ela gostaria de estar com o
homem que tinha seu coração, e deixaria o orgulho de lado se... Se não fosse
ela. Por toda noite esteve ao lado de Enrico ouvindo todas as besteiras que
eram possíveis para um homem dizer, sobre todas as coisas desinteressantes
quais Thomas jamais falava; viagens onde não se visitava os lugares, apenas hotéis
caros, restaurantes caros, mulheres, jogos. Quando o jantar for servido, Thomas
pediu que Melissa lhe ajudasse a sentar ao lado de Izabel.
- O que está fazendo? – Izabel perguntou.
- Sentado ao lado da mulher que admiro –
Thomas respondeu sorrindo.
- Não.
- Não flerte a noite inteira com esse
moleque.
- Eu não estou flertando com Enrico.
- Então admite que é um moleque?
- Não.
- Por favor.
- Não seja ridículo.
- Seu comportamento tem sido ridículo e
inadequado.
- Inadequado?
Sou uma mulher solteira Thomas, sem laços, sem comprometimento, tem noção
disso?
Após uma longa pausa, digerindo
e entendendo como suas palavras cortaram Izabel, Thomas suspirou.
- Mas ainda é uma
mulher.
- É o único aqui
preocupado com minha reputação e insinuando coisas que não existem.
- Eu jamais faria
isso. Você sabe que acredito em direitos iguais, em autonomia. Mas também sabe
que muito provavelmente sou o único nessa casa que acredita nisso e certamente
eu seria repudiado por tal ideia, acredito que nem mesmo o homem que lhe
acompanha está noite, acredita em tais ideias.
- Nenhum homem me
acompanha.
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Com o tempo passando, pessoas
novas entravam e saiam daquela casa, Melissa já perdera a conta de quantos
homens e mulheres foram marionetes nas mãos de Thomas e Izabel, houveram noites
que assim como Thomas, Izabel se ausentava, talvez estivessem cansados demais
dos jogos, ou os solteiros presente não lhes fossem interessante coincidentemente
na mesma noite, pois quando isso só acontecia para um deles, a casa virava um
inferno. Com o anúncio de que alguns primos passariam as férias na casa, e que
entre os convidados, Laura e Enrico estariam presentes, Melissa quase sorriu.
- Alguém sairá vivo? –
Melissa indagou e avisou que se recolheria pois não estava se sentindo bem,
Izabel foi logo depois com a desculpa de que lhe faria companhia.
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