Espectro do não morto - A carta não enviada
"Eu já não sei escrever como escrevia, costumei sempre dar sentido a minha tristeza naquele conjunto de palavras e ter orgulho deles - os conjuntos -, assim como para boa parte dos que escrevem, os dias tristes me proporcionavam felicidade em resultado. Acho que essa mudança, advém do fato de que, nós não nos acostumados ao ruim depois de conhecermos o lado bom, e eu o conheci. Antes, os altos não eram tão altos e os baixos eram diferentes, quando eu achava que já não seria possível doer mais, doía. Se nos acostumamos a fazer algo, após fazê-lo por vinte dias, eu havia me acostumado a chorar. Se nos apegamos a tristeza por ela ter sido nossa incansável companhia, eu havia me acostumado a entristecer e passei a sentir falta desse estado. Conheci o lado bom, conheci ápices de felicidade e raízes de dor. O problema de conhecer o lado bom após ter tido um caso de amor com a tristeza, é que você a personifica mesmo sem querer, o pessimismo jamais vai embora, e todas às vezes que está te visita, aquele volta, ela volta reclamando o que é seu; você. Ela volta e te diz que de teus atormentados braços jamais deveria ter saído, pois lá era seguro. A quem você pertence? A quem eu pertenço? Meu declínio para a melancolia é puramente explicado pela presença constante da dor, o esmorecimento não era algo da idade ou fase, era consequência. Eu me deitei ao lado da felicidade. A quis, conquistei, no entanto os esforços para manter o mar calmo e o sorriso são mais dolorosos que sentar e ser abraçada pela constância da dor. Aceita ou afugenta? A quem pertence? Os meios caminhos já conhecidos das voltas insanas cansam, os mesmos tropeços por demasiadas vezes tornam a mente acostumada a sacolejar na estrada e desacostumada a mar calmos, e os mares calmos são raros em ondas constantes. Eu estou perdida em um oceano de águas suas. Eu encontro ar em você para perdê-lo em mim. Eu estou perdida na matéria do seu ser, na poeira do seu eu, perdida nas palavras que me afogaram, eu estou perdida nas consequências do que encontrei em você, engasgada com o que nunca ouvi e desejei. Eu to perdida em minhas dores causadas pelos seus traumas antigos, eu encontrei dor que nunca senti nas suas perdas. Eu senti saudade da minha melancolia, com saudade do meu triste por ser. Sinto que me permitiram ver a beleza para que quando eu já não pudesse enxergar, doesse mais. Eu sinto demais e e no demais me perco."
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