Um livro que na verdade nunca comecei
"Os estilhaços de vidro no chão da cozinha compõe o
cenário do que aconteceu ontem, ela jurou que um dia perderia a cabeça, ou se
perderia. Aconteceu. Atirou pela janela as cinzas das fotos, cartas e objetos que queimou ou seus
pedaços remanescentes, por frações de segundos sentiu vontade de não os atirar –
os pedaços e os objetos que um dia já foram dados em promessa de amor -, mas de
atirar-se. Fechou a janela da sala e a dos pensamentos. Gritou ao vento que o
amava, que precisava dele, mas o peso
era demais, e a vida estava sendo cruel. Seus gritos eram tão desesperadores,
que os vizinhos, antes, enquanto eram só os barulhos, o bater das portas,
pensavam em reclamar com o sindico, agora, eram complacentes com a sua dor. Uma mulher gritou: como você pode?
Ela estava organizando seu aniversário. Ela está grávida! Seu imundo. O mundo
não estava mesmo jogando limpo com Katy, why God? Justo quando tudo parecia
bem, quando as juras de amor tinham ficado mais intensas, as rosas chegavam
todos os dias e o carinho era denso e o amor perfeito. Teriam sido esses os
sinais? Mas, o que antecede uma tragédia não é uma outra tragédia? Então,
posteriormente a essa discussão ele pediria o divorcio? E assim, Katy seria a
tragédia que antecedeu a sua própria?
Enquanto ao divorcio, Katy afastou esse
pensamento, não era isso que queria pensar, ela, era quem deveria pedir o
divórcio, mas, ela só queria pedir perdão. Caiu de joelhos aos seus pés, e
entoou algo que nem mesmo ela lembra. Depois murmurou perdão, e pediu que ele
parasse, repetiu por horas: por quê? Nem mesmo ele sabia, ele era tão lunático
e Katy tão perfeita, agora, ela esperava um filho dele, e ele que mal estava
sendo bom marido, já julgava que dessa forma, não poderia ser um bom pai... Há mil
passos de desistir e a menos de três passos de perdoar, mas no momento, ainda
que estivesse a um passo do perdão, não deixaria de estar no ponto da dor, no
olho do furacão... O vendaval a arrastava para o quarto, para banheiro, para a
cozinha, varanda, e de novo aos pés do marido. O guarda-roupa vazio, no entanto,
não haviam malas, estavam vazio pois Katy tirou todas as roupas e por cada
canto havia uma peça, da janela da cozinha se via a camisa favorita de Lucio
caída ao lado da piscina. Que mulher... ele pensou.
- Você é maluca.
- Só uma maluca aguentaria tanto tempo todas as armações, ironias, dores do seu mundo, Lucio.
Katy lembrou de quando eles eram adolescentes e ela suportou a pirraça de todas amigas de Lucio, o ciúme de sua bisavó e as alfinetadas de seu pai. Lembrou de cada brincadeira que a feriu de verdade.
- Eu não sou maluca, eu só não tenho mais paciência.
- Você nunca tem.
- Eu tive por 15 anos."

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